Um site dedicado ao humor e à cultura relacionados com os peixes e a ictiologia. Contribuições são bem vindas.
7/27/2006
6/18/2006
1/05/2006
Gaspar Frutuoso

Santas “férias”: consegui um bocadinho para re-ler Gaspar Frutuoso. Foi uma leitura muito focada em procurar as descrições das lagoas de São Miguel, mas mais uma vez me impressionou pela forma vívida como nos faz recuar quinhentos anos, a um tempo em que se apanhavam pombos torcazes à mão, ou se caçavam porcos nos matos de Ponta Delgada.
A minha perquisa foi recompensada. Fui à procura de referências a peixes de água doce... e encontrei-as!
Mas antes um pouco de história. A primeira referência que conheço a peixes de água doce nas lagoas é dos irmãos Bullar (1841, A winter in the Azores and a summer at the baths of Furnas) que viram “peixes vermelhos” nas Furnas. Já existiriam esses animais nas lagoas antes do povoamento?
No capítulo XLIX do segundo volume do Livro Quarto das Saudades da Terra, Frutuoso descreve a zona das Furnas, “a que alguns chamam boca do inferno”. Muito impressionado com os fenómenos vulcânicos, as referências que faz à lagoa são escassas, mas no final do capítulo deixa a seguinte pérola:
“anda nela [na Alagoa Grande] diversidade de aves em grande número, como são adens, mergulhões, maçaricos, galeirões, patas bravas e outras espécies delas; podia-se criar ali infinidade de peixes de água doce, se houvesse curiosidade para os trazer a ela, de fora.”
O que quererá Frutuoso dizer com "de fora"? Esta expressão pode referir-se a outras lagoas nos Açores, mas não encontrei mais nenhuma referência a peixes dulçaquícolas nas Saudades da Terra. A interpretação que considero mais lógica é que Frutuoso se refere ao continente, como em "de fora dos Açores". Isto significaria uma confirmação de que os peixes de água doce não existiam nos Açores no final do séc. XVI.
A forma como os peixes vermelhos (prov. Carassius auratus) chegaram à lagoa das Furnas, a ponto de lá existirem em abundância no início do séc. XIX, constitui também um problema interessante. Nunca me convenceu a hipótese de António S. Vicente (Introdução de peixes de água doce nas lagoas de S. Miguel. Açoreana , 1956, 5 (3): 297-305) de esses animais terem sido introduzidos naturalmente, através de ovos transportados por aves de arribação. Encontrar-se-á algum dia um documento que esclareça esta questão?
11/24/2005
Gould's Book of Fish
Um livro estranho, "Gould's Book of Fish. A novel in 12 fish" de Richard Flanagan. Tinha que ler, claro, que mais não fosse pelo assunto e pelas imagens dos peixes. Mas não sou o único a ficar confuso: as críticas abrangem todo o leque do elogio rasgado às acusações de pretensiosismo. Há aspectos interessantes, como as múltiplas circularidades, que pedem uma segunda leitura para melhor captar o respectivo sentido. Mas não vou fazê-la nos tempos mais próximos...Dito isto, devo dizer que gostei do capítulo final. Aqui fica um extracto:
"I like my fellow fish. They do not whinge about small matters of no import, do not express guilt for their actions, nor do they seek to convey the diseases of kneeling to others, or of getting ahead, or of owning things. They do not make me sick with their discussions about their duties to society or science or whatever God. Their violences to one another-murder, cannibalism-are honest & without evil."
10/27/2005
He paints fish
Descobri há algum tempo o trabalho de Jason Scarpace, um pintor que se especializou... em peixes. Como se pode ver no seu site (que se chama, obviamente, ipaintfish), Scarpace usa cores vivas em pinturas dinâmicas, com um efeito estético que a mim me agrada muito.
Este é um fruto bonito da árvore da arte ictiológica, cujas raízes vêm pelo menos desde o Paleolítico.
6/23/2005
Como peixe na água


Os peixes e os livros são duas das minhas paixões. E encontrar imagens que juntem as duas coisas não é fácil. Tinham-me oferecido o marcador da esquerda há alguns anos e tem sido o companheiro fiel de muitas noites. E ontem, juntamente com o último/primeiro livro do Heinlein chegou o espectacular marcador da direita. A emoção é demasiada!...
6/07/2005
Os peixes na arte paleolítica

Não sei como dei com a referência da tese de Pierre Citerne, "Les poissons dans l'art paleolithique. Un theme figuratif au coeur de l'iconographie Magdalenienne" (2003). Mas não resisti a pedir uma cópia, e o autor foi suficientemente simpático para ma oferecer.
Já conhecia, claro, a iconografia do período, mas sempre a associei a animais terrestres. Acho fascinante encontrar representações de peixes com mais de 10.000 anos de idade, de um período em que grupos de pessoas, que ainda não dominavam a utilização de metais, (re?)colonizavam a Europa após o final da última glaciação. A grande abundância de desenhos, nas paredes e nos objectos de uso corrente, permite-me imaginar que não seria difícil encontrar alimento e que as pessoas tinham tempo para dedicar a actividades criativas. Que inveja...
Citerne consegue identificar várias espécies de peixes, apesar de quase metade dos pictogramas ter uma intenção mais decorativa que naturalista. Os salmonídeos eram os animais mais representados (80%), mas também se encontram pleuronectiformes, lúcios, esturjões, enguias e ciprinídeos. Curiosamente, são quase todos de água doce- os peixes de água salgada encontram-se sobretudo na arte parietal. Seria interessante saber se a ênfase nos salmonídeos teria correspondência com a importância destes peixes na alimentação, mas o autor faz um abordagem cautelosa deste assunto.
A terminar, deixo aqui também a imagem da única representação de um peixe obtida por piquetagem conhecida para o Paleolítico europeu e proveniente de... Foz Côa.
1/11/2005
As carpas e a invenção do alfabeto
A propósito de uma discussão passada, descobri que existia uma tradução portuguesa das “Just so stories”, de Rudyard Kipling (“Histórias assim mesmo”, 1999, Ed. Caminho, admiravelmente traduzidas por Ana Saldanha, no âmbito da sua tese de doutoramento). São histórias para miúdos, de facto, mas têm camadas, como eu gosto. Eles riem-se com os disparates e as cenas caricaturais, e nós ficamos a pensar no resto.
Comecei pel'“O Filho de Elefante”, porque tinha visto referências ao poema final, cuja primeira quadra merecia figurar em todos os laboratórios de investigação, e nas capas dos cadernos de todos os estudantes universitários:
Tenho seis criados, vai pasmandoNuma outra história, “Como a primeira carta foi escrita”, Kipling descreve uma cena muito cómica que resulta da tentativa de Taffimai Metallumai (que quer dizer «Pessoa-pequena-sem-maneiras-nenhumas-que-devia-ser-açoitada»), a esperta filhinha de Tegumai Bopsulai («Homem-que-não-põe-um-pé-à-frente-do-outro-à-pressa»), de mandar um recado à sua mãe através de um desenho feito numa casca de salgueiro. A história passou-se no Neolítico e foi gravada numa presa de elefante que fazia parte de uma velha trompa tribal da Tribo de Tegumai. Tegumai tinha partido a sua lança a pescar carpas no rio Wagai, e a primeira carta alguma vez escrita pretendia dizer “Mãe, traz a lança preta grande, que está dentro da caverna”. A mãe pensou que a filha e o marido estavam a ser atacados e alvoroçou a tribo inteira.
(Tudo o que sei me ensinaram bem)
Chamam-se O Quê e Porquê e Quando
E Como e Onde e Quem.

A pequena Taffimai, assustada mas ao mesmo tempo fascinada com o poder da sua invenção, inventou o alfabeto com a ajuda do pai, para resolver o problema de transmitir o que queria dizer de maneira a não haver más interpretações.
A primeira letra inventada foi o “A”. A maneira de a dizer lembrou a Taffimai uma carpa com a boca escancarada. “Não sabes como elas ficam de cabeça para baixo a escarafunchar na lama?” perguntou ela ao pai. E desenhou-a assim (1). Foi Tegumai que lembrou que as carpas têm barbilhos (2), e a letra acabou por ficar mais ou menos como a conhecemos hoje (3).

A segunda letra foi o Y, que seria a cauda da carpa.

Já se está a ver que imaginação não faltava a esta dupla. O “S” inspirou-se na cobra, claro, o “O” num ovo, e por aí adiante. Os peixes voltaram a ser fonte de inspiração para o “G”, de glutão, que foi desenhado a partir da boca do lúcio (30), ficando o “K” a ser representado por uma lança atrás desse mesmo símbolo (31).

Esta é pois uma importante contribuição da Ictiologia para a cultura universal, a somar aos textos literários de Bertolt Brecht e do Pe. António Vieira (guardados aqui).
11/11/2004
Literatura ictiológica
Sendo eu um ictiólogo (entre outras coisas) também me espanto com a minha incultura relativamente ao impacto da Ictiologia nas áreas não científicas.
Enquanto espero por uma forma melhor de aprofundar e organizar esta idéia, aqui fica o registo do sermão de Santo António aos peixes (Pe. António Vieira) e Se os tubarões fossem homens, de Bertolt Brecht.



