10/14/2006

Burbujas de amor

A Ictiologia também chegou à música. Juan Luis Guerra quer ser um peixe. Tudo bem, mas o texto tem algumas falhas de lógica.


O peixe está dentro de um aquário (pecera) a fazer bolhas, e passa a noite acordado, com um coração enlouquecido (cordura = sanidade mental) e a fazer silhuetas de amor ao luar. Até aqui tudo bem, tirando o facto de que os peixes não têm nariz e NÃO FAZEM BOLHAS! Mas deixo esse estereótipo para outra entrada. Como é que, dentro do aquário, pode bordar de corais ou de cayenas (hibiscos) a cintura dela? E o "mojado em ti" tem algum outro significado, para além do óbvio?









Burbujas De Amor- Juan Luis Guerra

Tengo un corazón
Mutilado de esperanza y de razón
Tengo un corazón que madruga donde quiera
¡ay ay ay ay ay!
Este corazón
se desnuda de impaciencia
Ante tu voz,
Pobre corazón
Que no atrapa su cordura

Quisiera ser un pez
Para tocar mi nariz en tu pecera
Y hacer burbujas de amor por dondequiera, ohhhh
Pasar la noche en vela
Mojado en ti

Un pez
Para bordar de corales tu cintura
Y hacer siluetas de amor bajo la luna, ohhhh
Saciar esta locura
Mojado en ti

Canta corazón
con un ancla imprescindible de ilusión
Sueña corazón
No te nubles de amargura, ay ay ay ay ay

Y este corazón
Se desnuda de impaciencia
Ante tu voz,
Pobre corazón
Que no atrapa su cordura

Quisiera ser un pez
Para tocar mi nariz en tu pecera
Y hacer burbujas de amor por dondequiera, oohh
Pasar la noche en vela
Mojado en ti

Un pez
para bordar de corales tu cintura
Y hacer siluetas de amor bajo la luna, oooohh
saciar esta locura
mojado en ti

Una noche
Para hundirnos hasta el fin
Cara a cara
Beso a beso
Y vivir
Por siempre
Mojado en ti

Quisiera ser un pez
para tocar mi nariz en tu pecera
y hacer burbujas de amor por dondequiera, ohhh
pasar la noche en vela
mojado en ti

Un pez
para bordar de cayenas tu cintura
y hacer siluetas de amor bajo la luna, ohhh
saciar esta locura
mojado en ti

Para tocar mi nariz en tu pecera
y hacer burbujas de amor por dondequiera, ohhh
pasar la noche en vela
mojado en ti

Un pez para bordar de cayenas tu cintura
y hacer siluetas de amor bajo la luna, ohhh
vaciar esta locura
mojado en ti

10/10/2006

Todd Essick


O trabalho deste fotógrafo é absolutamente assombroso. Nunca vi um tal domínio da técnica fotográfica associado à interacção do modelo com os animais. Preto-e-brancos luminosos cruzam-se com poses impensáveis (veja-se a foto do manatim, por exemplo) num brilhantismo que me fez vir aqui deixar o registo.






...e as modelos são giras, também.

9/16/2006

Seek revenge


Uma estranha forma de fazer publicidade. Hesitei em colocar a imagem aqui, até porque não se vê nenhum peixe. Mas tem elementos interessantes, desde o jogo com o mito dos tubarões devoradores de pessoas (ia escrever "homens"...) até ao nome do restaurante, passando pela idéia de nos podermos vingar da maldade de um animal.

9/11/2006

A união faz a força

Um desenho pleno de simbolismo, de Ken Sprague.



O interessante é que eu já vi uma cena exactamente igual a estas, num mergulho junto ao Castelete, nas Lajes do Pico. De repente vimo-nos rodeados de um enorme cardume de chicharros, que escureceram o sol. A razão para esta bola de peixe ter procurado refúgio na nossa presença? Um grupo de bicudas, que os rodeavam ameaçadoramente.

Ora já toda a gente viu o efeito de reacção de um cardume quando é atacado por um predador: os animais aproximam-se e começam a nadar em círculos, formando uma bola. Se os predadores investem, o cardume abre um espaço, os animais movendo-se como moléculas num líquido, a coordenação dos movimentos sincronizada pelas vibrações dos animais em redor. Para quem não viu, Charles Mahwell tem as imagens perfeitas.

O que não vi ainda documentado em lado nenhum foi o inverso: "dedos" de peixes sairem do cardume em direcção às bicudas, que recuavam. Sim, leram bem: da bola de peixes pequenos e amedrontados saía um prolongamento que se dirigia ameaçadoramente em direcção de um dos predadores, quando eles se aproximavam. Era um movimento rápido, os pequenos animais diluindo-se logo a seguir na multidão.

Mas eu fiquei a pensar, desde esse dia: na frente desse prolongamento ia um único animal. Os outros até possivelmente seguiam o instinto de cardume. Mas não o da frente, que avançava claramente para o que podia ser a morte certa. Seria um peixe qualquer? Ou seria que afinal, num cardume de peixes todos iguais, há peixes mais iguais que outros?

9/10/2006

O poder das palavras


Diz-se que uma imagem vale mais de mil palavras. Isso é verdade neste caso, mas a imagem só faz sentido (ou só se percebe o sentido que se quer dar à imagem) em função de uma palavra, que tem que ser nela integrada. Não será isto sempre assim? As imagens dizem muito mas, para haver transmissão de sentido, têm que vir acompanhadas de palavras. Senão ficamos no relativismo expresso por António Gedeão:

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

Alice na cidade das maravilhas








Com argumento e desenhos de Luís Louro (v. entradas sobre o autor na ASA e na Lambiek), este álbum de 1995 tinha que figurar na minha colecção, uma vez que a fauna e um outro fetiche meu criam sinergias... interessantes.

A protagonista sonha que voa numa Lisboa debaixo de água nas costas de uma gaivota, no meio de cardumes de peixes que passam por baixo do arco da Rua Augusta, de uma baleia que sobrevoa o Rossio e de uma jamanta que atravessa a Praça do Comércio. Uma idéia que surpreende e que compensa alguma pobreza do bem-intencionado argumento.

O álbum pode ser adquirido online no site da ASA.

7/27/2006

E agora?

Obrigado à LN pela dica e pela simpática referência.

1/05/2006

Gaspar Frutuoso


Santas “férias”: consegui um bocadinho para re-ler Gaspar Frutuoso. Foi uma leitura muito focada em procurar as descrições das lagoas de São Miguel, mas mais uma vez me impressionou pela forma vívida como nos faz recuar quinhentos anos, a um tempo em que se apanhavam pombos torcazes à mão, ou se caçavam porcos nos matos de Ponta Delgada.

A minha perquisa foi recompensada. Fui à procura de referências a peixes de água doce... e encontrei-as!

Mas antes um pouco de história. A primeira referência que conheço a peixes de água doce nas lagoas é dos irmãos Bullar (1841, A winter in the Azores and a summer at the baths of Furnas) que viram “peixes vermelhos” nas Furnas. Já existiriam esses animais nas lagoas antes do povoamento?

No capítulo XLIX do segundo volume do Livro Quarto das Saudades da Terra, Frutuoso descreve a zona das Furnas, “a que alguns chamam boca do inferno”. Muito impressionado com os fenómenos vulcânicos, as referências que faz à lagoa são escassas, mas no final do capítulo deixa a seguinte pérola:

“anda nela [na Alagoa Grande] diversidade de aves em grande número, como são adens, mergulhões, maçaricos, galeirões, patas bravas e outras espécies delas; podia-se criar ali infinidade de peixes de água doce, se houvesse curiosidade para os trazer a ela, de fora.”

O que quererá Frutuoso dizer com "de fora"? Esta expressão pode referir-se a outras lagoas nos Açores, mas não encontrei mais nenhuma referência a peixes dulçaquícolas nas Saudades da Terra. A interpretação que considero mais lógica é que Frutuoso se refere ao continente, como em "de fora dos Açores". Isto significaria uma confirmação de que os peixes de água doce não existiam nos Açores no final do séc. XVI.

A forma como os peixes vermelhos (prov. Carassius auratus) chegaram à lagoa das Furnas, a ponto de lá existirem em abundância no início do séc. XIX, constitui também um problema interessante. Nunca me convenceu a hipótese de António S. Vicente (Introdução de peixes de água doce nas lagoas de S. Miguel. Açoreana , 1956, 5 (3): 297-305) de esses animais terem sido introduzidos naturalmente, através de ovos transportados por aves de arribação. Encontrar-se-á algum dia um documento que esclareça esta questão?

11/24/2005

Gould's Book of Fish

Um livro estranho, "Gould's Book of Fish. A novel in 12 fish" de Richard Flanagan. Tinha que ler, claro, que mais não fosse pelo assunto e pelas imagens dos peixes. Mas não sou o único a ficar confuso: as críticas abrangem todo o leque do elogio rasgado às acusações de pretensiosismo. Há aspectos interessantes, como as múltiplas circularidades, que pedem uma segunda leitura para melhor captar o respectivo sentido. Mas não vou fazê-la nos tempos mais próximos...

Dito isto, devo dizer que gostei do capítulo final. Aqui fica um extracto:
"I like my fellow fish. They do not whinge about small matters of no import, do not express guilt for their actions, nor do they seek to convey the diseases of kneeling to others, or of getting ahead, or of owning things. They do not make me sick with their discussions about their duties to society or science or whatever God. Their violences to one another-murder, cannibalism-are honest & without evil."

10/27/2005

He paints fish

Intervening Action (2005)

Descobri há algum tempo o trabalho de Jason Scarpace, um pintor que se especializou... em peixes. Como se pode ver no seu site (que se chama, obviamente, ipaintfish), Scarpace usa cores vivas em pinturas dinâmicas, com um efeito estético que a mim me agrada muito.

Este é um fruto bonito da árvore da arte ictiológica, cujas raízes vêm pelo menos desde o Paleolítico.

6/23/2005

Como peixe na água




Os peixes e os livros são duas das minhas paixões. E encontrar imagens que juntem as duas coisas não é fácil. Tinham-me oferecido o marcador da esquerda há alguns anos e tem sido o companheiro fiel de muitas noites. E ontem, juntamente com o último/primeiro livro do Heinlein chegou o espectacular marcador da direita. A emoção é demasiada!...

6/07/2005

Os peixes na arte paleolítica


Lortet, Pierre Citerne
Não sei como dei com a referência da tese de Pierre Citerne, "Les poissons dans l'art paleolithique. Un theme figuratif au coeur de l'iconographie Magdalenienne" (2003). Mas não resisti a pedir uma cópia, e o autor foi suficientemente simpático para ma oferecer.

Já conhecia, claro, a iconografia do período, mas sempre a associei a animais terrestres. Acho fascinante encontrar representações de peixes com mais de 10.000 anos de idade, de um período em que grupos de pessoas, que ainda não dominavam a utilização de metais, (re?)colonizavam a Europa após o final da última glaciação. A grande abundância de desenhos, nas paredes e nos objectos de uso corrente, permite-me imaginar que não seria difícil encontrar alimento e que as pessoas tinham tempo para dedicar a actividades criativas. Que inveja...

Citerne consegue identificar várias espécies de peixes, apesar de quase metade dos pictogramas ter uma intenção mais decorativa que naturalista. Os salmonídeos eram os animais mais representados (80%), mas também se encontram pleuronectiformes, lúcios, esturjões, enguias e ciprinídeos. Curiosamente, são quase todos de água doce- os peixes de água salgada encontram-se sobretudo na arte parietal. Seria interessante saber se a ênfase nos salmonídeos teria correspondência com a importância destes peixes na alimentação, mas o autor faz um abordagem cautelosa deste assunto.

A terminar, deixo aqui também a imagem da única representação de um peixe obtida por piquetagem conhecida para o Paleolítico europeu e proveniente de... Foz Côa.

Figura de peixe de Foz Côa

1/11/2005

As carpas e a invenção do alfabeto


A propósito de uma discussão passada, descobri que existia uma tradução portuguesa das “Just so stories”, de Rudyard Kipling (“Histórias assim mesmo”, 1999, Ed. Caminho, admiravelmente traduzidas por Ana Saldanha, no âmbito da sua tese de doutoramento). São histórias para miúdos, de facto, mas têm camadas, como eu gosto. Eles riem-se com os disparates e as cenas caricaturais, e nós ficamos a pensar no resto.
Comecei pel'“O Filho de Elefante”, porque tinha visto referências ao poema final, cuja primeira quadra merecia figurar em todos os laboratórios de investigação, e nas capas dos cadernos de todos os estudantes universitários:
Tenho seis criados, vai pasmando
(Tudo o que sei me ensinaram bem)
Chamam-se O Quê e Porquê e Quando
E Como e Onde e Quem.
Numa outra história, “Como a primeira carta foi escrita”, Kipling descreve uma cena muito cómica que resulta da tentativa de Taffimai Metallumai (que quer dizer «Pessoa-pequena-sem-maneiras-nenhumas-que-devia-ser-açoitada»), a esperta filhinha de Tegumai Bopsulai («Homem-que-não-põe-um-pé-à-frente-do-outro-à-pressa»), de mandar um recado à sua mãe através de um desenho feito numa casca de salgueiro. A história passou-se no Neolítico e foi gravada numa presa de elefante que fazia parte de uma velha trompa tribal da Tribo de Tegumai. Tegumai tinha partido a sua lança a pescar carpas no rio Wagai, e a primeira carta alguma vez escrita pretendia dizer “Mãe, traz a lança preta grande, que está dentro da caverna”. A mãe pensou que a filha e o marido estavam a ser atacados e alvoroçou a tribo inteira.

A pequena Taffimai, assustada mas ao mesmo tempo fascinada com o poder da sua invenção, inventou o alfabeto com a ajuda do pai, para resolver o problema de transmitir o que queria dizer de maneira a não haver más interpretações.
A primeira letra inventada foi o “A”. A maneira de a dizer lembrou a Taffimai uma carpa com a boca escancarada. “Não sabes como elas ficam de cabeça para baixo a escarafunchar na lama?” perguntou ela ao pai. E desenhou-a assim (1). Foi Tegumai que lembrou que as carpas têm barbilhos (2), e a letra acabou por ficar mais ou menos como a conhecemos hoje (3).

A segunda letra foi o Y, que seria a cauda da carpa.

Já se está a ver que imaginação não faltava a esta dupla. O “S” inspirou-se na cobra, claro, o “O” num ovo, e por aí adiante. Os peixes voltaram a ser fonte de inspiração para o “G”, de glutão, que foi desenhado a partir da boca do lúcio (30), ficando o “K” a ser representado por uma lança atrás desse mesmo símbolo (31).

Esta é pois uma importante contribuição da Ictiologia para a cultura universal, a somar aos textos literários de Bertolt Brecht e do Pe. António Vieira (guardados aqui).

11/11/2004

Literatura ictiológica

Sendo eu um ictiólogo (entre outras coisas) também me espanto com a minha incultura relativamente ao impacto da Ictiologia nas áreas não científicas.


Enquanto espero por uma forma melhor de aprofundar e organizar esta idéia, aqui fica o registo do sermão de Santo António aos peixes (Pe. António Vieira) e Se os tubarões fossem homens, de Bertolt Brecht.