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10/10/2017

Diálogo

Albano Martins

Diálogo

Levarás
pela mão
o menino
até ao rio. Dir-lhe-ás
que a água é cega
e surda. Muda,
não. Que o digam
os peixes, que em silêncio
com ela sustentam
seu diálogo
líquido, de líquidas
sílabas
de submersas
vogais.

in "Castália e Outros Poemas"

9/20/2011

The edges of time

 Kay Ryan

It is at the edges
that time thins.
Time which had been
dense and viscous
as amber suspending
intentions like bees
unseizes them. A
humming begins,
apparently coming
from stacks of
put-off things or
just in back. A
racket of claims now,
as time flattens. A
glittering fan of things
competing to happen,
brilliant and urgent
as fish when seas
retreat.

"The Edges of Time" was first published in the New Yorker and is forthcoming in "The Best of It, New and Selected Poems."

6/28/2010

caxinas setenta e sete (excerto)

(...)

imagina que as pessoas são
animais marinhos que aprenderam a
demorar ao sol

depois sente também o sol, percebe como
se pode mergulhar nessa luz, e depois imagina
que essa luz é a mesma do passado
e traz do passado todos quantos
se guardam na memória, e depois
percebe como a memória é a
presença de todo o tempo que já
foi, percebe que lembrar é um sol
que não tem dia e nem se apaga, percebe
que lembrar é a ressurreição de cada
um, percebe que lembrar é a verdadeira
história, e depois mergulha mais
fundo ainda na luz, talvez vejas um peixe
passar, estás a nadar, estás a nadar, és
também água, és um animal
marinho


Num poema que começa com as mesmas três estrofes deste excerto, fala-se da vida (grave) dos pescadores e das suas mulheres (imagina como naufragam na areia), e termina-se desta maneira, que para mim evoca o nosso passado evolutivo longíquo, a nossa memória genética de termos sido peixes.

3/01/2009


“Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquiliamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.

O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema contituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho pintor – sendo o vermelho nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.

Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.

Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.”

(Obrigado pela dica, LN)

12/22/2008

Destino de peixe

Descobri hoje o livro "Destino de peixe", de Isabelle Lebastard (poemas) e Brigitte d’Ozouville (fotografias), de onde transcrevo:


Palavra de Peixe

Nunca vou desistir da vida

Mesmo se à frente os atuns
arregalam os olhos

Mesmo se atrás
abrem as bocas dos tubarões

Nunca vou desistir da esperança

Mesmo se a bombordo
arrastam malhas e redes

Mesmo se a estibordo
abanam iscas e anzóis

Decidi nunca desistir do desejo

De mergulhar nas águas frescas
de saltar nas ondas espumantes

Mesmo aqui
no fundo deste barco de pescador
de regresso ao porto
da minha última escala.




Queria pôr aqui a ligação, mas o livro não está listado no site da Editora, a Livros Horizonte... Mas pode ler-se o prefácio de Mário Ruivo no Barramar.

11/04/2007

Fundo do mar



No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.


Sophia de Mello Breyner Andresen

10/19/2007



Caldeirada
Alberto Janes (1977)

Em vésperas de caldeirada o outro dia
Já que o peixe estava todo reunido
Teve o goraz a ideia de falar à assembleia
No que foi muito aplaudido

Camaradas principia a ordem do dia
É tudo aquilo que for poluição
Porque o homem que é um tipo cabeçudo
Resolveu destruir tudo pois então

E com tal habilidade e intensidade
Nas fulguranças do génio
Que transforma a água pura numa espécie de mistura
Que nem tem oxigénio

E diz ele que é o rei da criação
As coisas que a gente lhe ouve e tem que ser
Mas a minha opinião, diz o pargo capatão,
Gostava de lha dizer.

Pois se a gente até se afoga,
Grita a boga, por o homem ter estragado o ambiente.
Dar cabo da criação, esse pimpão,
E isso não é decente!

Diz do seu lugar tá mal o carapau
Porque por estes caminhos
Certo vamos mais ou menos ficando todos pequenos
Assim como “jaquinzinhos”

Diz então o camarão a certa altura
Mas o que é que nós ganhamos por falar?
Ó seu grande camarão, pergunta então o cação
Você nem quer refilar?

Se quer morrer, diz a lula toda fula
Com a mania da cerveja nos cafézes
Morra lá à sua vontade que assim seja
Para agradar aos fregueses

Diz nessa altura a sardinha p'rá taínha
Sabe a última do dia? A pescadinha já louca
Meteu o rabo na boca
O que é uma porcaria!

Peço a palavra- gritou o caranguejo-
Eu que tenho por mania observar,
Tenho estudado a questão e vejo a poluição
Dia e noite a aumentar.

Cai do céu a água pura
E a criatura pensa que aquilo que é dele, é monopólio.
Vai a gente beber dela e a goela
Fica cheia de petróleo!

A terra e o mar são para o cidadão
Assim como o seu palácio
Se um dia lhe deito o dente
Pago tudo de repente ou eu não seja crustáceo!

É um tipo irresponsável grita o sável
O homem que tal aquele
Vai a proposta p'rá mesa ou respeita a natureza
Ou vamos todos a ele!

8/31/2007

MISTÉRIOS

Ilustração: Alice Jorge


O pescador veio do mar
Chegou de manhã
Trouxe uma rede
Cheia de peixes
Que pescara na noite

     Veio
     No seu barco
     Sozinho com os peixes
     Presos
     Na rede

E as estrelas no céu
     presas dormiam
     na luz da manhã
Quem come um peixe
     não sonha estes mistérios


Matilde Rosa Araújo (1988)